Eu mereço!

Beatriz Frias

Vivemos em um mundo que se pauta na lógica do ‘merecimento’. Fazemos A para conquistar B, escolhemos os caminhos ‘corretos’ para, então, podermos usufruir e sermos felizes para sempre! Mas, quem disse que, na prática, acontece mesmo assim?

Nem mesmo a felicidade é um bem que se mereça, como defende o médico psiquiatra Jorge Forbes. Ninguém merece (ou não) ser feliz. Muito pelo contrário, a felicidade se dá no acaso, de conseguir suportar o inesperado.

Certa vez, uma amiga me contava que comeu um doce delicioso, pois ela ‘merecia’ e aí, eu virei para ela e não hesitei em responder:

– Ah é? Pois meu corpo não merece isso, não!

E, então, começamos a rir.

Estou mencionando esta passagem porque foi algo que marcou para nós duas. Naquele momento, eu colocava uma forma diferente de enxergar as coisas. Pois é, diferente! Não significa que sou tão xiita assim, tampouco que como tudo corretamente. Aliás, não existe certo ou errado, muito menos melhor ou pior. Somente uma maneira diferente.

Outra passagem que me marcou aconteceu há algumas semanas, quando reencontrei uma antiga professora e começamos a conversar. No meio das novidades, eu contava a ela que ultimamente estava praticando bastante esporte, academia… Enfim, não gostava de ficar parada. E, nesta hora, ela me indagou:

– Então, você é atleta?

– Não, não sou. Eu pratico esporte, porque gosto!

– Ah, que bom! Daí você pode comer o que quiser?

– Bem, mais ou menos. Eu costumo comer de maneira bem saudável, pois isso me faz bem!

Em ambos os exemplos, fica nítido como as pessoas possuem uma visão de sacrifício nisso tudo. Acreditam que fazer exercício físico serve, única e exclusivamente para emagrecer e, da mesma forma, pensam sobre se alimentar de forma saudável.

Mas e a sua saúde, então, não vale nada? Se as pessoas soubessem a sensação de bem-estar e de prazer que um estilo de vida ‘saudável’ pode te proporcionar, certamente existiriam menos problemas de álcool e drogas e mais pessoas optando pela vida do dia, ao invés da noturna.

O problema é que nem todos têm a oportunidade de experimentar e outros preferem continuar em seus próprios paradigmas, acreditando sempre que demanda muito sacrifício e esforço.

Fulano merece comer o doce, sicrano merece beber porque trabalhou o dia todo, beltrano merece acordar tarde porque é fim de semana, como se a vida tivesse que ser exatamente assim.

Retomo aqui que a lógica implicada, na maioria das vezes, é a de ‘sacrifício / recompensa’, sempre focando no prazer momentâneo. E, com isso, acabamos deixando de lado a oportunidade de trocar esses poucos momentos de ‘merecimento’ por outros grandes momentos de bem-estar e prazer.

Na lógica do estilo de vida que eu vivencio, sacrifício é ter que ficar parada, não poder pedalar, correr, nadar, se exercitar. Sacrifício é ser obrigada a comer alimentos que não caem bem, até mesmo porque o meu corpo já está condicionado a saber a ‘bomba’ que virá na sequência.

Se, ao invés do agora, priorizássemos atitudes sustentáveis a longo prazo, certamente tudo fluiria mais fácil. Pare por um momento e tente ‘escutar’ o que seu corpo está te pedindo. São pequenas atitudes que, somadas, podem fazer uma grande diferença!

 

Artigo publicado originalmente na Revista ARRASO | Boa Comida  * edição n.59 *

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